segunda-feira, 3 de abril de 2017

FLORIANO MARTINS | Max Harris e os pinguins mais irados da terra


Ivor Francis foi um pintor australiano nascido na Inglaterra em 1906. Tendo vivido a maior parte de sua vida na Austrália, ali conheceu, às vésperas de 1940, o jovem poeta Max Harris, atraído por seu envolvente ânimo surrealista. A amizade de ambos foi bastante frutífera. Francis é considerado o primeiro artista surrealista australiano. Max Harris, em 1941, cria a revista The Angry Penguins, de capital importância para a difusão do surrealismo na Oceania. Em 1942, ao lado de alguns pintores amigos, Ivor Francis realizou a primeira grande exposição de arte modernista do país. É possível mencionar que a importância de ambos, sobretudo de Max Harris, seria algo equivalente à contribuição de Roland Penrose (1900-1984), este último no tocante ao surrealismo na Inglaterra. No entanto, não houve nunca um encontro entre Roland e qualquer um dos dois australianos. Mesmo em um livro tão criterioso e revelador quanto 80 anos de surrealismo 1900-1981, de Penrose, não há referência à presença australiana. Mesmo nomes essenciais nas artes plásticas, como Sidney Nolan (1917-1992) e James Gleeson (1915-2008), não encontraram ambiente relevante fora de seu país para a circulação de suas obras. Absurdo ainda maior é que mesmo na Austrália seja insuficiente, para dizer o mínimo, e em alguns casos, como o de Max Harris, seja mesmo inencontrável qualquer menção àquela geração.
Outro expressivo pintor surrealista, Eric Thake (1904-1982), cuja tela Archaeopteryx compartilha, em 1941, com James Gleeson, o prêmio principal da Sociedade de Arte Contemporânea de Melbourne. Homenagem a Magritte, esta obra de Thake trazia já a marca de um surrealismo engenhoso. Thake, também era gráfico e fotógrafo, e posteriormente se aproximou do letrismo e do mundo pop. Os dois artistas, Thake em Melbourne e Gleeson em Sidney, foram os grandes semeadores de uma expansão de horizontes na criação artística de seu país. E a base dessa expansão era justamente dada pelo Surrealismo, pela leitura de uma paisagem inóspita e misteriosa como parte de um sonho que representa a própria vida. Essa fecundação de estranhezas, que encontramos, por exemplo, em Yves Tanguy ou Salvador Dalí, era o fluxo germinativo do que havia de mais profundo em termos de arte na Austrália naquele momento. E me inclino por dizê-lo que aí radica o de mais importante que até hoje se produz nesta região.
 As trilhas históricas desse surrealismo foram casual ou sistematicamente apagadas? Talvez uma leitura da cronologia de vida e obra de Max Harris nos ajude a compreender. Ainda é possível encontrar em livrarias australianas livros de arte em que há capítulos dedicados à pintura de Sidney Nolan ou James Gleeson, porém sem que o texto se detenha demasiado em sua íntima relação com o surrealismo. O caso de Max Harris é o que, no entanto, mais me preocupa. Exceto por uma edição em pdf (www.nla.gov.au/sites/default/files/theangrypenguin.pdf) que circula na Internet, uma antologia de sua poesia, não há mais exemplares da revista, livros seus ou mesmo estudos a seu respeito em qualquer livraria em Sidney. Pior ainda: as mais destacadas antologias panorâmicas da lírica australiana do século XX não incluem este poeta. E ainda mais grave: o surgimento de um grupo surrealista na Austrália nos anos 1970 desconhece a própria história do país, ou então a resolve apagar por alguma inaceitável razão.
Dados biográficos rápidos: Max Harris nasceu em Adelaide em 1921. Entre Adelaide e Melbourne fez sua residência de vida inteira, sendo impressionante seu conhecimento sempre atualizado de tudo o que se passava na Europa naquele momento. Essencialmente poeta, Max Harris já aos 19 anos trata de editar a mais importante revista de vanguarda de seu país, The Angry Penguins, onde encontraram palco tanto os expoentes iniciais do surrealismo e do expressionismo na Austrália quanto uma diversidade de nomes estrangeiros, uma mescla que inclui autores como Dylan Thomas e Gabriel García Márquez, e intrigantes vozes estadunidenses, a exemplo de James Dickey e Harry Roskolenko. Os três primeiros números de The Angry Penguins foram patrocinados pela mãe do poeta. A publicação da primeira edição causou certa agitação no meio local, o que despertou a atenção de John Reed (1901-1981), um dos mais meritórios editores de arte da Austrália. Reed foi a Adelaide conhecer Harris e lhe propôs ir morar em Melbourne. Os dois passaram a editar conjuntamente a revista. Reed & Harris tornou-se expansiva companhia editorial, tratando não apenas de difundir a arte local como também de cumprir a necessária missão de trazer nomes destacados da Inglaterra e da América para o país. Logo a revista se envolve no escândalo em torno dos poemas de Ern Malley. Max Harris, sentindo-se derrotado retorna a Adelaide, porém mesmo ali ele se alia a uma amiga, Mary Martin (1915-1973), que, apaixonada pela cultura indiana, mudou-se para a Índia em 1962 e transferiu a livraria para seu nome. O poeta, com o passar do tempo, recolheu-se em um retiro rural. Morreu em 1995 por conta de um câncer na próstata. Há menções de que seja um dos maiores poetas líricos da Austrália, assim como também momentaneamente ficou conhecido como o pai do modernismo nas artes deste país. No entanto, a realidade é bem outra, e seu nome caiu hoje em um complexo e injusto esquecimento.
Sua bibliografia inclui os seguintes títulos: The Gift of Blood: Poetry (1940), Dramas From the Sky (1942), The Coorong and Other Poems (1955), The Circus and Other Poems (1961), A Window at Night, ABR Publications, Adelaide (1967), Poetic Gems (1979) e a já referida antologia The Angry Penguin – Selected poems (1996). Também é autor de uma novela:
The Vegetative Eye (1943) e, em 1968 publicou, juntamente com Geoffrey Dutton The Vital Decade: Ten Years of Australian Art and Letters. Há ainda uma série de estudos críticos encontrados em The Angry Eye (1973), Ockers : essays on the bad old new Australia (1974), The Unknown Great Australian and Other Psychobiographical Portraits (1983) e The Best of Max Harris – 21 Years of Browsing (1986).
No decorrer dessa breve biografia, mencionei um escândalo e a ele vamos agora retornar. Antes é preciso entender que o mundo literário na Austrália sempre foi profundamente conservador. A inquietude de Max Harris rapidamente o pôs na condição de um enfant terrible, e suas ideias políticas e estéticas a todo custo precisavam ser freadas. The Angry penguins, com preocupante receptividade, dava a conhecer ideias subterrâneas e estrangeiras que de algum modo se chocavam com os interesses da comunidade cultural local. Surgiu então a ideia de uma maquinação. Certo dia Max Harris recebe correspondência de Ethel Malley, na redação da revista, a ele confiando poemas de um irmão morto bem jovem, e que ela, confiante no valor de The Angry penguins, acreditava ser o melhor meio para divulgar os versos de Ern Malley. Max os lê como versos românticos, repletos de uma aura renovada, e então os publica na revista. A aceitação dos leitores é imediata. Ern Malley torna-se uma valiosa descoberta da revista. Em uma edição seguinte, Max Harris reúne uma série de análise aos poemas de Malley assinadas por destacados críticos, dentre eles sir Herbert Read.
O que houve então? Relações entre as forças armadas e a comunidade retrógada intelectual manipularam uma acusação de que The Angry Penguins havia publicado um poeta indecente, com versos que feriam os padrões morais da sociedade. Foi então forjado um julgamento, a revista dada como culpada e Max Harris teve que pagar uma multa. O escândalo, contudo, não era este. O que se descobriu em seguida é que jamais existiram Ethel e Ern Malley. Foram uma invenção de dois militares que pinçaram fragmentos de textos de inúmeras fontes, quase todas não literárias. A criminosa fanfarrice foi suficiente para eliminar da história de um país sua mais expressiva referência revolucionária, no ambiente das artes.
A Austrália não se livrou do surrealismo, como queria então sua retrógrada comunidade intelectual. Do que ela se livrou foi da confiabilidade internacional de uma cultura que em todo momento pode ser uma fraude. Este episódio marca de tal forma a idoneidade cultural de um país que, por mais que reconheçamos sua invejável condição social nos dias de hoje, é impossível não considerar o custo de tal condicionante. Talvez coubesse a algum intelectual australiano sensibilizar o governo da urgência em se desculpar pelos danos de silêncio impostos à obra de um de seus mais importantes intelectuais: Max Harris. No entanto, até o momento o que se tem processado é justamente o inverso. Nos anos 1970 surge um Grupo Surrealista na Austrália, atuante por duas décadas, onde não se faz sequer menção a este momento da história. Em 1993 Christopher Chapman (1966) publica um volumoso catálogo da exposição Surrealism – Revolution by night, que contém alentado, porém incompleto dossiê sobre o surrealismo na Austrália. Cria-se com isto uma errônea ideia de quase inexistência de atividades surrealistas no país e, mesmo assim, vinculada exclusivamente ao mundo plástico.
Exemplo dessa distorção é que em seu livro Surrealismo: el oro del tempo (2013), o espanhol Miguel Pérez Corrales, ao comentar a edição de Christopher Chapman, deduz e difunde:

Duas coisas essenciais devem ser apontadas sobre o surrealismo naquele território durante a etapa que cobre este estudo, ou seja, 1923-1949. A primeira é que a projeção surrealista na Austrália se reduz praticamente à linguagem plástica. A segunda é que há somente uma figura que se identificou plenamente com o surrealismo, e que continuou a aventura surrealista pelo resto de sua vida: James Gleeson. Com ele há, ao final do livro, uma longa entrevista, feita pelo próprio Chapman, que podia ter sido mais iluminadora.

Desnecessário dizer algo mais, considerando as menções já feitas por mim a James Gleeson – além de pintor, ele foi também poeta, crítico de arte e curador – no tocante às suas relações com Max Harris e The Angry Penguins. Concluo estas breves notas com três poemas de Harris, na tradução realizada por Allan Vidigal, para o volume que ainda mantenho inédito: Viagens do Surrealismo. E uma sugestão de leitura: “Comentário sobre a poesia australiana”, de Max Harris, que publicamos aqui mesmo na Agulha Revista de Cultura, também na tradução de Allan Vidigal: http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com.br/2017/02/max-harris-comentario-sobre-poesia.html.


R.S.V.P.

Para Paul Eluard

poderei te conhecer, irmã distante do tempo,
vestida de verde,
olhando o canto esvaziado dos trens
a lançar fúria e lixo contra as luas?
Estive
prendendo entre os dedos a transição
da fumaça, lançando aos teus pés o pedido
de clemência, o desejo cortesão
de servir a tua mesa
e levar teus pratos até os lábios negros de júpiter, grávido
e escaldado de excremento.
Que belos dias, estes, em que o amor lambe as areias da manhã.
ama a garçonete dançarina que fuma e fuma
para que eu esconda a chama do passado
dentro da manga
e pareça um grande mago
arrastando esperanças por aí
numa longa fieira de pérolas particulares.


O PÁSSARO

O pássaro empoleirado no ramo do meu olho
é chamado de amigo da árvore
e seus pés delicados dão forças ao tronco

enquanto ele canta, perverso.
O pássaro que cantarola para a seiva
e as grutas de vermes escondidos
é o desejo que faz troça da terra cínica
e dos corações lacrados.

O pássaro empoleirado no ramo do meu olho
bicou o nervo da retina
trouxe o tormento da chuva e o frescor do sangue
ao longo da curva do coração.


NECROMANCIA

Sete são as tentações,
Nove as horas do dia,
Dois a distância entre nós
E uma só a via.

Verde a ideia em que há amor,
Branca a ideia que divide,
Negra a sombra que nos julga
Pela destruição da nossa lide.

Um sinal nos basta para viver,
Uma forma traçada no ar;
Longa a linha de tempo que seguimos.
Levará a algum lugar?



*****

FLORIANO MARTINS (Brasil, 1957). Poeta, ensaísta, tradutor, artista plástico e editor. Dirige a Agulha Revista de Cultura e a ARC Edições. Poemas traduzidos por Allan Vidigal. Página ilustrada com obras de Ana Mendoza (Venezuela), artista convidada desta edição de ARC.

*****

Agulha Revista de Cultura
Fase II | Número 26 | Abril de 2017
editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com
logo & design | FLORIANO MARTINS
revisão de textos & difusão | FLORIANO MARTINS | MÁRCIO SIMÕES
equipe de tradução
ALLAN VIDIGAL | ECLAIR ANTONIO ALMEIDA FILHO | FEDERICO RIVERO SCARANI | MILENE MORAES
os artigos assinados não refletem necessariamente o pensamento da revista
os editores não se responsabilizam pela devolução de material não solicitado
todos os direitos reservados © triunfo produções ltda.
CNPJ 02.081.443/0001-80






Nenhum comentário:

Postar um comentário