quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Agulha Revista de Cultura | Fase II | Número 22 | Editorial


● GLAUBER ROCHA, FANTASIA E NÁUSEA DA CONTEMPORANEIDADE

Glauber falava em fazer filmes sobre a “fantasia da contemporaneidade”. Só que isto em uma época em que a contemporaneidade não havia sido de todo drogada pela massificação dos meios e da mensagem.
Glauber queria “descomplexar” a mentalidade da cultura brasileira, sempre tomada de assaltos por europeísmos e estadunidismos. Disse que o protestantismo ajudou seu cinema, referindo-se à “falta de pudor diante das imagens” de seus filmes. Enfermada de catolicismo, a cultura brasileira nunca entendeu o Surrealismo. Numa possível definição estilística, jamais arriscou grandes voos. Fomos sempre torniqueteados por uma culpabilidade política e outra religiosa.
Glauber reclamava da necessidade de se fazer uma revista de cultura. Não se pode deixar de fazer crítica a tudo o que se produz. Temos que parar com o corporativismo cultural e recuperar a indignação. Somente a raiva restaura. Nos anos 1990, tivemos a revista Piracema (da FUNARTE), uma tribuna crítica, com uma ambientação histórica e um jato de luz sobre a cena contemporânea. Logo foi devastada pela canalhice tradicional.
Então voltamos ao ponto de partida: uma cultura que não se discute, discurso liquefeito em louvações e esquecimentos táticos. Institucionalizou-se a velha prática do Concretismo: a fraude. Aliás, em 1972, Glauber já se referia à confraria dos concretos como “concretinos”, chamando-os de “funcionários da tecnologia”. Uns funcionários algo incompetentes, uma vez que, nas relações entre poesia, modernidade e tecnologia, não interferiram em nada do que se havia esboçado no manifesto da tribo. Segundo arremate lúcido de Glauber, o Concretismo só trouxe contribuição para a publicidade.
Glauber em todo momento sugeria a seus pares aquilo que deveriam filmar. Não se tratava de petulância e sim de uma espécie de poética automática, giratória, que esteve a vida inteira disparando. Cartas, conversas, filmes etc. Distribuía ideias a todos. Sugeriu a Arnaldo Jabor filmar uma “psicanálise radical da família de classe média”. O filme Tudo bem (1978) é um ensaio disto. Pena que fosse pouco ouvido. Decerto assim o cinema brasileiro poderia contar com alguns filmes, além de alguns seus.
Glauber expunha-se despudoradamente ao diálogo. Insultava, delirava, profetizava, sempre impulsionado pela essencialidade que lhe atribuía. Sabia que em discussão aberta não há usurpação de direitos.
Nos anos 1980, afirmava que “o nacionalismo é a raiz do futuro brasileiro”. Sua visão de nacionalismo era outra, em nada ligada a uma postura integralista. Bem antes já expusera sua repulsa à adoção irrestrita da ideologia de ‘68, dizendo que vivíamos uma falsa crise, reflexo da incorporação integral de aspectos políticos de outros países. Tivesse sido ouvido decerto haveria alguma resistência ao musak predominante em nossa cultura.
Disse que temos uma leitura despedaçada de tudo. Sofremos a síndrome do à la page, do up to date. Somos culturalmente autistas. Sequer aprendemos algo com nossos erros. Tanto é verdade que ainda se considera Oswald de Andrade um paradigma da modernidade brasileira. Vivemos em um estado demagógico populista. Nada de risco ou complexas definições estéticas. Para que as peças se encaixem no jogo e tudo pareça normal, substituímos o diálogo pelo debate programado, a edição de textos, o tratamento de imagens. Tudo é televisão.
Glauber escreveu sobre Fellini e parecia falando de si: “o mais livre e o menos comprometido com as regras do jogo”. Talvez se possa dizer dele que tenha sido o único artista do cinema brasileiro. As ousadias estéticas levadas à tela em A idade da terra (1980) bem o provam. Não é um filme, e sim um manifesto.
Assim como Fellini, Glauber também foi um cineasta “sem culpa de loucura e beleza”, que soube conviver com os labirintos intestinais do sonho e da realidade. Apontou as falhas de seus pares, reconheceu as atitudes além de sua capa ideológica, denunciou o quanto que “os brasileiros detestam o Brasil”, sobretudo amando indiscriminadamente o que fazia e defendia.
A discussão em torno de Glauber não poderá jamais se restringir ao cinema. Mesmo em se tratando da leitura de uma desconstrução da linguagem, em seu caso, graças a uma visceralidade irredutível de seu caráter. Se ali traçou um plano de destruição da narrativa, encarnou a desconstrução do discurso como uma organicidade estética. Absurdo referir-se a ele como um caótico.
Glauber se sentia um barroco épico. Segundo o crítico Ely Azeredo, havia nele tanto um “obsessivo delírio poético” quanto um “poderoso cerne realista”. A grande dificuldade de aceitá-lo no Brasil é que se faz aqui uma arte de gabinete, marcada a fogo por padrões e normas de conveniência. Glauber nunca teve nada a ver com Godard, Nouvelle Vague ou mesmo o Cinema Novo. Nunca foi apocalíptico nem integrado. Estivesse vivo continuaria dizendo aos cineastas: deixem de fazer cena, façam filmes!
Glauber dessascralizou todas as posturas de uma modernidade congênita, denunciando uma enganosa patologia do moderno. Ironizou o velho guru Timothy Leary, a fraude de uma vanguarda francesa, a perene dependência estética da cultura brasileira. Seremos eternamente público ou definiremos alguma ação? Nisto reside a perspectiva central que nos abre a obra e a vida de Glauber Rocha.

Floriano Martins



ÍNDICE

ALFONSO PEÑA | Carmen Santos  y su estela vanguardista: pintura, objetos y obra gráfica

ESTER FRIDMAN | Dos preconceitos dos filósofos às três transmutações

FERNANDO DENIS | Dante Gabriel Rossetti o la gótica soledad de las palabras

FLORIANO MARTINS | Um encontro impossível com Bartolomeu Mourisco

LEDA CINTRA CASTELLAN | Brasil dos livros esquecidos

OMAR CASTILLO | Ascuas, la poética de Jaime Sáenz

OMAR CASTILLO | El universo anverso de León de Greiff

OMAR CASTILLO | La presencia de Alejandra Pizarnik

RAFAEL RATTIA | Eugenio Montejo: la leve terredad del poema

ZUCA SARDAN & FLORIANO MARTINS | Labyrintho Naska – Um ensaio-automático

ARTISTA CONVIDADO | KENICHI KANEKO | Agonias e bonanças, anotações autobiográficas










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Página ilustrada con obras de Kenichi Kaneko (Brasil), artista invitado de esta edición de ARC.

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Agulha Revista de Cultura
Fase II | Número 22 | Dezembro de 2016
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2 comentários:

  1. Flor, Agulha está muito bacana demais!!! Parabéns!!! Vamos em frente!!

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  2. Floriano! Excelente exemplar! Parabéns!

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