quinta-feira, 17 de novembro de 2016

NELSON SCRENCI | Aventuras Máximas de Francisco Máximo Baratti


Francisco Máximo Baratti é um jovem artista de 89 anos.
A sua jovialidade é evidente e indiscutível, não só pelo incrível aspecto físico que apresenta apesar da idade avançada, e que o faz frequentemente mostrar seus documentos para dirimir qualquer dúvida de incautos interlocutores, mas também pela vitalidade que se pode perceber à primeira observação de qualquer um dos seus inúmeros trabalhos artísticos.
Outro fato digno de nota e de reflexão a respeito de sua carreira, que não deve ter sido muito diferente da história de muitos dos nossos batalhadores artistas, é que só agora faz sua primeira exposição individual, depois de muitos anos de trabalho em diversas profissões que ocupam um extenso currículo.
Para conhecer com maior profundidade o que faz esse notável artista que se apresenta nas inaugurações de mostras como uma animada pessoa de fluente e feliz conversa, tive a oportunidade de visitar numa manhã de sábado seu espaço de trabalho, localizado em Santana, bairro tradicional da cidade de São Paulo.
As subir a escada que leva ao pavimento superior, localizado em cima de uma padaria, deparei-me com uma grande cópia de parte de conhecida pintura de Dürer, afixada ao lado da porta de entrada. Ela retrata dois dos apóstolos confabulando sobre as sagrada escrituras. Como as roupagens dos santos ocupam a maior parte da obra, o olhar com um pouco de intenção abstrata pode facilmente ver ali não apenas os tecidos drapejados, mas grandes áreas de cor, talvez uma primeira influência ao que eu veria a seguir.
Depois de entrar na ampla sala de trabalho do artista, outras reproduções de quadros de célebres pintores, como Antonello da Messina e Rubens, colocados numa das paredes laterais, revelam preferências que, certamente, serviram direta ou indiretamente de guia e inspiração para a formação da linguagem de Baratti.
Quem me acompanhou até aqui, nesta tentativa de conduzir a atenção do leitor para uma visita a um antigo ateliê, provavelmente imagina que encontrará a seguir uma descrição de obras acadêmicas escurecidas pelo tempo, semelhantes àquelas que podem ser vistas nos antiquários, com temas banais e estereotipados, pintadas por um senhor como um passatempo ou uma maneira de preencher agradavelmente os longos dias de aposentadoria.
Porém, para surpresa geral, o que tive pela frente foi a visão que contraria a ideia de um ambiente obscurecido pelo tempo, e também nega tudo o que se poderia esperar da produção de alguém que provavelmente dedica-se a uma atividade descompromissada e amadorística. Ao invés disso, naquelas paredes, podia ser visto o resultado de um longo trabalho, transbordante de atualidade, com claros sinais de uma ação realizada com muita competência, conhecimento e dedicação profissional.
As obras, pintadas com intenso colorido que lembram os grandes grafites das metrópoles, são igualmente vigorosas em sua capacidade de atrair o olhar distraído de qualquer espectador não especializado. Dessa maneira, composições de grandes áreas de cor pura preenchendo largos fundos destacam irremediavelmente as figuras centrais, ao mesmo tempo em que constroem o clima necessário à completa expressão do assunto pretendido.
 As cores são fortes, chapadas, de textura quase imperceptível, separadas por limites bem delineados. Às vezes, um traço de contorno preto bem visível envolvendo as figuras aproxima essas criações das obras gráficas, aparentando-as tanto com os cartazes quanto com certas imagens semelhantes às produzidas por artista da pop art.
As combinações e contrastes conseguidos entre cores primárias e complementares são muito vivos em seu resultado final, transmitindo a sensação de terem sido criados com a finalidade e o cuidado utilizados na preparação de uma matriz para impressão de imagem industrial, onde a lei primordial é a valorização da informação com a maior clareza possível.
A temática, em razão de apresentar-se bastante variada, exige soluções diferentes para cada caso. Algumas são típicas de artista de grande cidade, como sugerem os títulos Metropolitan Girls, No Jóquei Clube, Metrópole, Sem Teto etc. Outras são referências literárias e à História da Arte, como As Baratas de Kafka, O Nome da Rosa, Pablo Casals, Goya Pintando Dia e Noite. Há também as humorísticas, com desenhos de animais e de personalidades, muito semelhantes ao que se faz nas charges. Porém, o que há em comum em todos os trabalhos, o que faz parecer que todos caminham para um mesmo destino apesar da diversidade de sua origem, é um traço pessoal do artista, decidido e caracteristicamente circular, feito de linhas que propõem movimento e ação. E todos provavelmente iniciaram-se da mesma maneira, partindo de pequenos ensaios em papel.
Em frente às pinturas, sobre uma espécie de prancheta que ocupa parte do centro do espaço de trabalho, podem ser vistos centenas desses estudos, que, juntamente com diversos outros objetos e instrumentos, constituem a mesa de trabalho do artista onde as criações são inicialmente engendradas. No centro, posicionados lado a lado, repousam pequenos desenhos feitos com canetas hidrográficas muito bem elaborados e detalhados e, por isso mesmo, distantes da aparência descuidada de rápidos esboços. Soube depois que são estudos preparatórios, pequenos modelos, que agora, depois de comparados às obras para as quais serviram de rascunho, parecem suas miniaturas. Curioso observar como são semelhantes entre si, à primeira vista quase idênticos, mas com pequenas diferenças de criação que demonstram ter havido ali um processo de depuração e aprimoramento das formas iniciais.







Também em outras mesas ou estantes, algumas carinhosamente construídas com simples caixas de papelão de supermercados, são vistos outros objetos curiosos, como coleções de livros de referência, lentes e um microscópio. Sem contar os óculos vermelho-verdes, com moldura de papelão, que trazem o título Pintura Estereótica, feitos para visualizar imagens tridimensionais.
Essa combinação de artista e cientista, tão comum nos áureos tempos históricos da pintura antecessora do renascimento italiano, levou o artista a realizar pesquisas da imagem em terceira dimensão. Parte de suas obras é feita de figuras que contém aquela duplicidade capaz de, com o auxílio dos mencionados óculos, propiciar a sensação visual de profundidade.
Esta pesquisa parece ter sido a principal preocupação de Francisco Baratti durante anos. E que, de certa forma, ainda persiste e intermitentemente volta a ocupar o centro de sua atenção. Parte do resultado foi apresentado por ele na Bienal Nacional de São Paulo, em 1976, o que o motivou a realizar diversas palestras sobre este assunto no Brasil e no Exterior.
Mas sua transição pelo universo teórico não se resume à experimentação puramente visual. Ele também escreve textos, que são apresentados em manuscritos muito caprichados e lindos em sua singeleza, ilustrados pelo autor em diversas técnicas gráficas. Num deles reuniu o conjunto de suas ideias sobre pintura e criação, sob o curioso título de Estética Sistemática.
Nesses muitos cadernos, onde são também guardados os já referidos estudos que servem de guia para a construção das obras, estão também as anotações para as construções e os comentários de cada etapa de trabalho. Entremeando as observações sobre assuntos sempre relacionados à arte e à sua história, há frases de efeito e ditados construídos com todo o cuidado e a responsabilidade do educador, que procura deixar para os alunos o melhor de si, de tudo o que aprendeu numa longa vida.
Para compreender um pouco mais sobre a personalidade desse curioso artista, é importante acrescentar que, durante toda a visita ao atelier, o rádio permaneceu ligado e sempre sintonizado na mesma estação, uma daquelas barulhentas FMs de São Paulo. O artista relata que tem predileção por aquele tipo de som, cuja batida constante renova suas forças! Felizmente este não é um tônico que pode ser administrado a todas as pessoas com o mesmo sucesso.
E quando instado a revelar o segredo de sua saudável longevidade, responde com uma obtusa teoria sobre a ingestão de gorduras que contraria qualquer conselho médico. Uma afirmação que defende com humor, talvez para dissimular o fato de que a alegria de pintar é que pode, de fato, ser a causa do seu rejuvenescimento.
Tudo isso pronunciado com o sorriso infantil e carinhoso do avô, que conta deliciosas histórias para mostrar que na arte, realidade e fantasia caminham juntas, e que às vezes podem até se confundir, como as luzes do crepúsculo, que por alguns delicados momentos, parecem idênticas às de um novo amanhecer.



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NELSON SCRENCI (Brasil). Professor de História da Arte e Artista Plástico. Página ilustrada com obras de Francisco Baratti (Brasil), artista convidado desta edição de ARC.






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