quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Agulha Revista de Cultura | Fase II | Número 20 | Editorial


R. LEONTINO FILHO | AVENTURAS DA POESIA NO TEMPO: O INTEIRO CONTINENTE REVELADO

A poesia lavrada pela palavra alumiada do tempo traça a formosura do sonho nos vitrais reversos da beleza. Todo sonhar é começo de viagem – travessia do gozo nos confins da linguagem – insônia das promessas por cumprir.
A poesia assuntada pelo canto provisório do devaneio subverte o paladar da transcendência nas marés do desejo. Todo querer é ranhura de cânticos – passagem de afeto nas volutas da língua – correnteza das brevidades por soletrar.
A poesia trancafiada pela ressaca sedutora do disfarce escancara o improviso da oferenda nas reentrâncias da provisoriedade. Todo equilíbrio é recorte de fotografias – costura de perdas nos inchaços do verbo – rugas da posteridade por triturar.
A poesia encompridada pela miragem quixotesca da barganha vislumbra o movimento da graça nos endiabrados golpes da sorte. Toda treva é largura de dor – lida de excitações na silhueta da sujeição – ardis do pensamento por deslizar.
A poesia desarmada pela certeza enviesada da dúvida azucrina a durabilidade infalível da fé na fervura incandescente do medo. Toda fisionomia é nódoa de emoções – álbum de açoites no catálogo da estranheza – confidências do ser por libertar.
Poesia é continente. Universo caleidoscópico magnetizado e magnetizante que faz aflorar sonhos e desembaraçar realidades. Poesia é mundo. Vasto hemisfério inteiro em suas fragmentações, heterogeneidades e multiplicidades: sons, cores e cerimônias pictóricas balouçando na névoa da razão.
Poesia é continente, sim. Submersas verdades desempenhadas pela coragem de cumprir, em espraiado solo, prodigiosas identidades. Poesia é sonho. Genuína mutação à cata de assombros no frio lençol do real: estilhaços de eras na elíptica natureza dos rumores. A poesia, para o mínimo dizer, é a cósmica consciência do continente.
Vez a vez, com intenso capricho, os dizeres poéticos se entrelaçam, numa curva ou noutra. Feito assim um Novalis: Estamos próximos do despertar, quando sonhamos que sonhamos; ou bem colado a um C. Ronald: O sonho é o acúmulo do que temos; / o sonho é antecedente do resultado. / A estrela não se tranca em si mesma para se mostrar. / Dou um salto e… pronto! Com largueza de voo, lá adiante, as palavras transeuntes do sonhar atiçam a memória de Floriano Martins: A poesia é uma caravana cuja beleza é terrível e a agonia é uma joia calcinada. Tão poucas coisas escondem-se da aventura poética: uma brisa, talvez; uma lua, quem sabe; um sol, porventura, pudera; um continente, jamais: poesia, tirante as fronteiras, é o todo do tudo – mundo sem donos, alternâncias das rotas. Surge assim, um livro maximamente fundamental, esse, pensado, sonhado, vivido e ofertado por Floriano Martins, Um Novo Continente – Poesia e Surrealismo na América.
A obra de Floriano Martins é um sol poético a alumbrar mares de desejos e rios de sonhos. Uma curvatura da lua cravejada por filamentos de liberdade a cintilar na ossatura inebriante da criação. Um livro mutuamente interpenetrado por múltiplos lances de beleza: o tempo refinado da poesia, eis a travessia do ensaísta-poeta-artista determinado a entender as metamorfoseadas larguezas da poesia e do surrealismo em nosso continente.
Um Novo Continente traça e retraça o percurso clandestino da América tatuada pela força da mestiçagem – essa espécie de colagem de culturas a gerar perplexidade no fremente coração do tempo; a mestiçagem, irmã hipnotizante do maravilhoso traçado da poesia, povoa os horizontes cognitivos do humano como espécie de tecido de interações. Cada parte desse carnudo continente forma uma frondosa árvore com vastos galhos experimentalistas e subvertedores. Mestiçagem, no espaço da América, em caudalosas latitudes, coabita com fraturas, transgressões e estranhezas e, desse modo, extravasa os entrechos, os enredos e os modelos que entorpecem a viva transparência do real por meio da onírica clarividência das ações. Em resumidas palavras, a mestiçagem continental da América é o impulso vitalista que materializa o espaço de um povo.
Floriano Martins, em Um Novo Continente, move-se pela palavra suprema, lâmina ungida unanimemente pelo sentido das coisas e dos seres, entendimento que suscita novos sopros para um renovado tempo poético. A feitura tríplice da obra propicia ao leitor-viajante farto material de navegação: ensaios, enquetes/depoimentos e entrevistas constituem um todo desse arquipélago desafiador que é o continente prismático, caleidoscópico da América em sua total grandeza, tantas vezes mero rosto despercebidamente figurado. Certo, pois, está o autor ao asseverar: A América ainda hoje é um precipício cujo fim se desconhece. Sem titubeios, que tal embarcar, com mapa na mão e ciente das ondulações do tempo e do espaço, nesse livro de viagens que Floriano Martins tão intenso e inventivamente construiu com poesia e arte, prazer e saber? Ao livro, então.
Cada parte de Um Novo Continente é um regalo para o espírito livre de todas as amarras. O texto é uma concentração aguda e enérgica de conhecimento e devir poético. A palavra crivada de beleza perfila uma a uma as cartografias do gozo e os alvores do onírico: a semeadura das páginas desse atávico continente condensa o pleno sentido da poesia como bem comum e da liberdade como ambição irrefreável do homem. No primeiro portal do livro tem-se a esclarecedora e reluzente “Celebração da memória: Notas de acesso” – um raro, radiante e indispensável guia para se chegar fortalecido às terras da poesia, da mestiçagem, da invenção delirante do surrealismo e do tempo espaçado do amor. Essas notas, densa, minuciosa e profunda carta de navegação cuidadosamente tecida, desenhada e elaborada por Floriano Martins, são uma espécie de senha que abre todos os portais do Continente.
A porta primeira, Diário de bordo, destrincha confusões, desfaz mistérios e ata as pontas das diferenças: um sem o outro é nada, um país é sempre a extensão de outra margem, terceira, quarta, quinta… paragens de universos assemelhados em suas alternadas alteridades. Uma voz delirante e vertiginosa move o acaso das estações e fecunda outras vozes de timbres diferentes: um cardume de sonhos é mais que uma reles realidade. Por isso mesmo, pelos desvãos do surrealismo, na amurada do silêncio, o poeta e ensaísta Floriano Martins prepara esse diário que se alberga na exata expressão da matéria explícita da memória: um continente é sempre uma galáxia de errâncias, candeeiro das contendas.
Na confluência de vozes e nos encadeamentos de expressões arrojadas da necessária poesia, Floriano Martins, numa enfática visada crítica, munido por atraentes procedimentos de montagem artística e tocado pela insubmissa palavra que revela os aspectos, os dialetos, as escritas e o imaginário de todo um continente, ensaia, no esplendor do texto, a natureza surrealista do universo americano, e o faz com tal refinamento que cada trecho-capítulo dessa magnífica obra é uma avalanche de descobertas: uma cosmogonia poética do espanto e da clarividência metafórica desentranhada da íntima beleza continental. As primeiras visões, as visões do exílio e as visões da névoa se alargam e flutuam nas mais distintas e precisas situações da América Latina & Caribe, dos Estados Unidos e do Brasil, uma incomensurável tríade de estudos e rumores críticos, de afortunadas buscas e oceânicas pesquisas.
O perdurável surrealismo, típica névoa sem tempo prefixado, segue firme, abolindo falsas ilusões e ofertando outras formas de ver o mundo, por isso mesmo, apresenta-se como uma arte tão controversa e atemporal. Uma longa citação, apenas uma, desentranhada das páginas continentais de Floriano Martins bem norteia o que aqui se assevera: A arte não é produto de um continuísmo e sim de uma ruptura. Essa ruptura está essencialmente ligada aos fragmentos da multiplicidade existencial apontada por ela mesma, não podendo descartar jamais o acidente, o imprevisível, o indeterminado, o lance de dados, o acaso objetivo, o súbito desencanto, o amor traído e demais picardias da essência humana. Não cabe discussão quanto à impossibilidade de haver progresso na criação artística. Vivemos em uma espécie de vaivém frenético, onde a cada momento corremos o risco de nos redescobrir como se jamais tivéssemos existido. Diante de tal prisma, o espírito do Surrealismo segue em frente, alheio às contaminações de triunfo e fracasso que amiúde determinam nosso tempo. Agora, depois desse clarão, um salto, curto pulo, para o comentário seguinte.
A poesia surrealista se desdobra no tempo em Um Novo Continente. Desdobrado movimento que desconhece distâncias, desfigura preconceitos, devasta mediocridades, afasta hipocrisias, decepa rótulos, inaugura linhagens e lança suas bases, especialmente sua imprecisa estranheza criativa, seu deslumbramento aparelhado por choques de novas razões – costura fortuita de alentadas reflexões – o surrealismo funda uma nova era e revela um jeito, também, novo, de dizer as coisas entressonhadas e rigorosamente importantes. Floriano Martins, habilmente poético e dotado de uma versatilidade ensaística, escreve com lúcida paciência e penetrante acuidade reflexiva a “Cartografia da inquietude” (o título é um achado, um tesouro e o que ele descortina é mais uma alentada viagem quebrantada de maravilhas): tantos labirintos incessantes povoados pelo conflito entre dois tempos, pelo convívio entre poetas surrealistas, abordando as restrições ao surrealismo e a sua consequente atualidade.
De pérola em pérola, novo achado: “Caravana de relâmpagos” (a formosura do nome remete igualmente para uma ilha de magnetizante beleza): de Lautréamont por Juan José Ceselli, Enrique Molina por Armando Romero, Juan Antonio Vasco por Rodolfo Alonso, Philip Lamantia por Neeli Cherkovski, Roberto Piva por Floriano Martins, entre outros estudos. Logo, em seguida, “A vida imaginária do surrealismo” e as brilhantes entrevistas – conversações substanciosas e substanciais sobre o fazer artístico em todo o continente. Por essa avenida de diálogos caminham pessoas e países tais como Enrique Gómez-Correa (Chile), Carlos M. Luis (Cuba), Manuel Mora Serrano (República Dominicana), Thomas Rain Crowe (Estados Unidos), Beatriz Hausner (Canadá), Ernest Pepin (Martinica) e Zuca Sardan (Brasil), entre outros. Imprescindíveis falas de ousadas visões. Cabe, aqui, um rápido registro. Floriano Martins, de há muito, estabeleceu um estreito vínculo com poetas, escritores e artistas latino-americanos; em mais de mil páginas publicadas estão registrados os elos fraternos da cultura – espécie de retrato falado de todo um continente ainda, infelizmente, pouco conhecido. Pode-se ler Um Novo Continente – Poesia e Surrealismo na América (2016) bem acompanhado pela Trilogia dos Afetos, composta por Escritura Conquistada Diálogos com poetas latino-americanos (Brasil, 1998) e os dois volumes que compõem Escritura ConquistadaConversaciones con poetas de Latinoamérica (Venezuela, 2009).
Já próximos do fim – começo de tudo – tem-se o terceiro capítulo: “Vanguarda clandestina”. Todo um continente descoberto, revelado a tempo de tudo saborear: um mundo constituído por singulares processos de identidades tão diferenciadas, todavia, irmanado por idêntico sopro de liberdade. Num átimo, a cultura, mutuamente nômade, apaga divisas, desentorta escudos, contorna estradas, reacende esperanças e pulveriza bandeiras. Mira-se no outro para melhor compreender a si mesmo: um continente é a extensão palpável de ajuntadas vontades, do contrário, pouco proveito tira-se dos encontros. O livro de Floriano Martins, na magnética vertigem da poesia, celebra a memória do tempo em horizontes de abundante plasticidade, é grandioso por todas as pistas, últimas e primeiras celebrações da memória. Um Novo Continente, sem favor algum, é uma obra ímpar, singular entre as singulares, fundamental entre as fundamentais, indispensável entre as indispensáveis, única entre as únicas, primeira entre as primeiras; um livro composto por muitos outros livros, um cântico poético entre tantos cânticos, uma oferenda do tempo no sem limite do tempo.
Um breve, brevíssimo, derradeiro registro, para não perder a viagem: o monumental ensaio de Floriano Martins pode figurar, dada a luminosidade da escrita e a versatilidade poética, com tamanha importância e bem juntinho, em boa hora, a três magníficas preciosidades da escrita ensaísta nacional. Cada uma, a seu modo, trata com especial carinho a palavra, o verbo, o ser, o sonho, a poesia e as coisas do continente americano, são elas: Aproximações estéticas do onírico (1967) de Fausto Cunha, A máscara e o enigmaA modernidade da representação à transgressão (1986) de Bella Jozef, e O continente submersoPerfis e depoimentos de grandes escritores de Nuestra América (1988) de Leo Gilson Ribeiro. Por fim, nessas coisas de poesia transportadas pelas representações do outro na vertente surrealista, melhor ser aprendiz, sempre que puder e desejar: do começo ao fim, tal como, acertada e provocantemente, registrou, com extrema perícia e honestidade Eduardo Peñuela Cañizal, em Surrealismo: rupturas expressivas (1986): Afinal, não tive a pretensão de ir muito longe: fiz, na verdade, uma viagem de principiante e retorno sem ter chegado ao rrealismo [...] o que eu aprendi do surrealismo: uma expressão que se rompe e um conteúdo que se afasta dos sentidos impostos pelo hábito. Um Novo Continente de Floriano Martins, por todos os ângulos da poesia lavrada, assuntada, trancafiada, encompridada e desarmada, é a inteira aventura do tempo rompendo os mares da mesmice oferecidos pelas ondas débeis e passageiras do hábito: um livro para mover sonhos e alterar rotas; uma peça literária montada no coração sagrado da arte.

NOTA
Posfácio do livro Um novo continente – Poesia e surrealismo na América, de Floriano Martins (Fortaleza: ARC Edições, 2016)



ÍNDICE


CARLOS RUVALCABA | Malcolm Lowry y el infierno mexicano

DAVID CORTÉS CABÁN | La casa amarilla, de Jorge Eliécer Ordóñez

ENRIQUE JARAMILLO LEVI | Tres ensayos breves en torno a la escritura

FEDERICO RIVERO SCARANI | Julio Inverso, ¿un joven poeta maldito?

FLORIANO MARTINS & JOSÉ ÁNGEL LEYVA | La inutilidad de las fuentes

GABRIEL JIMÉNEZ EMÁN | Diálogo con José Lezama Lima

LAURINE ROUSSELET | Sobre los poetas Serge Pey y Bernard Noël

PAULA VALÉRIA ANDRADE | City Lights Bookstore: uma livraria em meio às luzes da cidade

RICARDO GUILHERME | Uma conversa radiofónica com Belchior

TSHITENGE LUBABU M.K. | Negritud: Léon-Gontran Damas, el tercer hombre

http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com.br/2016/11/tshitenge-lubabu-mk-negritud-leon_17.html

 

ARTISTA CONVIDADO | FRANCISCO BARATTI | Aventuras Máximas de Francisco Máximo Baratti, por Nelson Screnci








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Página ilustrada com obras de Francisco Baratti (Brasil), artista convidado desta edição de ARC.




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Agulha Revista de Cultura
Fase II | Número 20 | Outubro de 2016
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