quarta-feira, 29 de junho de 2016

Agulha Revista de Cultura | Fase II | Número 18 | Editorial


• ÊNIO SILVEIRA, O HOMEM DA CIVILIZAÇÃO

A 20 anos da morte do editor Ênio Silveira (1925-1996), trato aqui de reapresentar resenha que escrevi em 1998 do livro Ênio Silveira. Arquiteto de liberdades. Este texto foi publicado unicamente no jornal O Povo (Fortaleza), sendo de todo desconhecido dos leitores de Agulha Revista de Cultura. Parece-me pelo menos sugestivo recordá-lo agora, diante de um confuso período que atravessa o mundo editorial no Brasil. Ênio Silveira criou em 1932 a Editora Civilização Brasileira, uma das mais importantes casas editoriais do país. A pauta deste número 18 também sugere harmonioso convívio entre passado e presente, ao reunir textos de época, assinados por Carlos Ruvalcaba, Hildebrando Pérez Grande, Violeta Lubarsky e Reynaldo Jiménez, ao lado de outros, inéditos e escritos especialmente para esta edição, de autoria de David Cortés Cabán, Félix Ángel, Omar Castillo e Floriano Martins. Abraxas

Há um ensaio de George Steiner onde assinala algumas diferenças entre fascismo e comunismo, observando essas duas correntes ideológicas no âmbito de suas intrigantes influências na criação literária. Diz ele que o comunismo, ao contrário do fascismo, “tem sido uma força central em grande parte do melhor da literatura moderna”, lembrando, mais à frente, que há tanto de “desprezo pelo homem” no fascismo, quanto de “uma mitologia do futuro dos homens” no comunismo. Neste ensaio, na verdade um breve estudo sobre o livro Literatura e Revolução, de Jürgen Rühle, menciona-se uma série de escritores cuja obra sofreu um “variado impacto do comunismo”, entre os quais se incluem Ernest Hemingway, Alberto Moravia, Cesare Pavese, Luis Aragón, Paul Éluard, André Malraux, Albert Camus, Jean Paul Sartre, Stefan Zweig etc. Observo então que boa parte dos nomes mencionados teve sua entrada no Brasil graças à visão de mundo de um de nossos mais importantes editores: Ênio Silveira.
E esta observação me vem a propósito do lançamento de Ênio Silveira. Arquiteto de liberdades (1998), livro organizado por Moacyr Félix, também ele parceiro de Ênio, em suas inexauríveis aventuras editoriais. A observação surge naturalmente em função da afinidade ideológica de ambos com o comunismo. Sendo assim, corrobora-se a percepção de Ênio Silveira, sempre envolvido e comprometido criticamente com sua época, com os desdobramentos essenciais do ser humano em um mundo castigado por injustiças de toda ordem. O lançamento deste livro, portanto, possui um caráter especial no cenário editorial brasileiro. É claramente um reconhecimento pelo imensurável trabalho que realizou o editor e humanista Ênio Silveira, e deveria vir assinado por todos nós que amamos este país.
Segundo me informou o próprio organizador, o livro detém-se, por circunstâncias editoriais, em um determinado segmento da vida profissional de Ênio Silveira, notadamente a que se reporta aos assuntos reflexivos da política e da cultura brasileira. Em suas 474 páginas, diria que acentua aspectos diretamente vinculados aos episódios de resistência da parte de Ênio Silveira ao regime de exceção instalado no Brasil a partir do golpe de 64, quando me parece que a importância deste editor excede os limites de uma reação – embora a sua tenha sido a mais exemplar de todas – às coações brutais sofridas pelos brasileiros, por ele em particular, no decorrer dos anos ‘70. Sob este aspecto, o livro traz, ao lado de outros documentos valiosos, a íntegra de um diário de prisão, datado de 14/12/68 a 06/01/69, uma das sete vezes em que esteve inaceitavelmente preso Ênio Silveira. Nesta ocasião, tem início a tradução da autobiografia de Bertrand Russel, que posteriormente publicaria.
Moacyr Félix inclui, no capítulo mais extenso do livro, uma série de textos escritos a título de apresentação e orelhas dos livros editados por Ênio Silveira, destacando autores como Octavio Ianni, Nelson Werneck Sodré, Roland Corbisier, Alberto Moravia, Ferreira Gullar, Jorge Wanderley e Manoel de Barros. Esta coletânea de textos, embora sofra da ausência de menção à data de publicação dos livros, reflete um abrangente - e nunca superficial - conhecimento dos inúmeros aspectos ligados à cultura. Ênio mostrava-se um humanista fascinante, sempre consciente do mundo à sua volta.
Outro momento importante deste volume organizado por Moacyr Félix, não posso ocultar aqui minha predileção por ele, reúne três entrevistas concedidas à imprensa por Ênio Silveira, entre 1994 e 1996. Ali encontramos uma síntese admirável de quem tenha sido este homem. Menciona-se de tudo: os aspectos que o tornaram editor, suas relações com a cultura e com as ideologias, seu entendimento acerca do mercado editorial, lúcidas ponderações ao governo atual, o desalento ou perplexidade das esquerdas, perspectivas e reflexões que atestam sua destacada influência nos destinos da cultura brasileira.
O paulista Ênio Silveira (1925-1996) possui um currículo fascinante: participou da fundação da Câmara Brasileira do Livro (1946) e foi um dos presidentes (1952) do Sindicato Nacional dos Editores de Livros. Trabalhou inicialmente na Companhia Editora Nacional, de Monteiro Lobato. Como esta editora havia comprado a Civilização Brasileira, fundada em 1932, entre outros, por Ribeiro Couto e Hildebrando de Lima, foi então para o Rio de Janeiro (1952), dirigi-la, transformando-a mais tarde, como ele próprio diria, “num dos grandes polos culturais do Brasil”. Cria a coleção “Cadernos do povo brasileiro” (1962) e as igualmente históricas: Revista da Civilização Brasileira (1965) e Encontros com a Civilização Brasileira (1978). Influi decisivamente na criação da Editora Paz e Terra, que se inicia com a publicação de uma revista homônima (1966). Nos anos ‘80 cria também a Editora Philobiblion.
Implicações financeiras decorrentes das inúmeras perseguições que sofreu por parte da ditadura militar levaram-no à venda da Editora Civilização Brasileira, adquirida por Manuel Bulhosa. Disse na ocasião: “pensando que é mais válido e importante ser do que ter, passamos a editora a outras mãos, por certo mais fortes e competentes do que as nossas para geri-la”. Manuel Bulhosa era então dono das editoras Difel e Bertrand Brasil. As expectativas de Ênio, contudo, não coincidiram com a realidade. Falida, a Civilização Brasileira acaba de passar para as mãos da Editora Record. O papel que representou em um passado recente tornou-se, ao que parece, incompatível com os princípios que regem o mercado atual.
Ênio Silveira, enquanto lhe foi possível, honrou acima de tudo o compromisso assumido perante esta sua inconfundível aventura editorial. Como recorda o filósofo Roland Corbisier, que teve seus livros editados pela Civilização Brasileira: “vivíamos em permanente angústia, pois todos nós, por qualquer motivo ou sem motivo algum, poderíamos ser presos e desaparecer para sempre, como, aliás, aconteceu com vários. A Civilização estava na alça de mira da ditadura militar e tudo foi feito para levá-la à insolvência. Todavia, resistiu e Ênio sempre se comportou com dignidade e coragem, inclusive nas numerosas prisões.”
A Civilização Brasileira editou mais de 4.000 livros. É responsável pela publicação de James Joyce, a começar por Ulisses, na tradução de Antonio Houaiss encomendada pelo próprio Ênio Silveira. Teve também o mérito de publicar a primeira edição integral de O capital, de Karl Marx. Pela Civilização Brasileira foi publicada a obra teatral de Dias Gomes, assim como livros de Glauber Rocha. Ênio Silveira lançou no Brasil pela primeira vez a poesia do peruano César Vallejo. Graças às traduções de Jorge Wanderley, tomamos conhecimento de importantes poetas ingleses e norte-americanos. Ênio Silveira pôs em merecido destaque nomes como Ferreira Gullar, Manoel de Barros e João Antonio. Enriqueceu a cultura brasileira com a edição de livros de Julio Cortázar, Hermann Hesse, William Faulkner, Scott Fitzgerald, Vladimir Nabokov e Aldous Huxley. Lançou (ou confirmou) brasileiros como Darcy Ribeiro, Franklin de Oliveira, Barbosa Lima Sobrinho e Mário Lago.
Não adianta estender-se em tal lista. Importa mais referir que Ênio Silveira teve o cuidado e, sobretudo, a acuidade de editar livros que imprimissem uma nova perspectiva à cultura brasileira. Importa referir sua insubornável condição suprapartidária, tanto quanto sua rejeição ao best-seller como princípio regente de qualquer aventura editorial. Todos aqueles que privaram de sua amizade apontam-no como um homem admirável. Octavio Ianni recorda que a Civilização Brasileira foi uma editora que “enfrentou audaciosamente as práticas fascistas da ditadura militar”. E as enfrentou com decisão ideológica e firmeza estética. Hoje não temos mais prisões políticas, bombas e ameaças, direitos cassados, ao mesmo tempo em que se foi por algum bueiro toda e qualquer noção de comprometimento, de natureza ética ou estética. E não se entenda aqui que uma coisa esteja vinculada à outra.
Evidente que a morte de Ênio não influi nesse processo. Contudo, julgo de extrema importância situar aqui um aspecto: Ênio Silveira - e temos também que abrir uma menção a José Olympio e Monteiro Lobato - foi um daqueles raros editores preocupados em fundar, descobrir ou estabelecer uma noção mínima que fosse de cultura em um país absolutamente carente de amor próprio. Mesmo contando com sua visão múltipla, não poderia jamais abarcar todo um universo cultural. Neste sentido, foi ainda mais ambicioso. Agiu dentro de sua expansiva noção do possível - não entendo a paixão como um sacrifício, como é hábito situá-la -, cuidando obstinadamente para que não nos tornássemos a ilha franca de debilizantes ações a que nos resumimos hoje.



*****

ÍNDICE

CARLOS RUVALCABA | Antoni Tàpies: del dadaísmo al arte pobre

CARLOS RUVALCABA | Bernardo Bertolucci, a treinta años de la filmación de El Último Emperador

CARLOS RUVALCABA | Entrevista a Lucio Muñoz, pintor informalista que dio grandeza al grabado

DAVID CORTÉS CABÁN | Un girasol sobre la nieve: La casa amarilla, de Jorge Eliécer Ordóñez

FÉLIX ÁNGEL | ¿Cuán moderno fue el modernismo brasilero de 1922?

FÉLIX ÁNGEL | Ecos desde afuera: los griegos, en Washington

FÉLIX ÁNGEL | My Brazilian affair

HILDEBRANDO PÉREZ GRANDE | César Vallejo, in the night

OMAR CASTILLO & FLORIANO MARTINS | La inutilidad de las fuentes

VIOLETA LUBARSKY Y REYNALDO JIMÉNEZ | Javier Sologuren: la experiencia de la palabra

Artista convidado | JUAN PABLO RAMÍREZ | Félix Ángel: un hombre entre la pluma y el pincel




Página ilustrada com obras de Félix Ángel (Colômbia, 1949), artista convidado desta edição de ARC.

*****

Agulha Revista de Cultura
Fase II | Número 18 | Julho de 2016
editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com
logo & design | FLORIANO MARTINS
revisão de textos & difusão | FLORIANO MARTINS
os artigos assinados não refletem necessariamente o pensamento da revista
os editores não se responsabilizam pela devolução de material não solicitado
todos os direitos reservados © triunfo produções ltda.
CNPJ 02.081.443/0001-80









Nenhum comentário:

Postar um comentário